| No coração congelado de Londres |
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Texto e fotos: Gustavo Rodrigues
O inverno de 2010 na Europa entrará para a história como um dos mais severos desde que começaram a fazer os registros históricos na região. A aviação, um dos mais rápidos, seguros e populares meios de transporte da atualidade, sofreu um duro golpe durante as vésperas do Natal no hemisfério norte, colocando em cheque toda estrutura atual e colocando a operação de Natal à margem da segurança devido ao clima severo. Essa é a história de dois dias preso no maior hub internacional do mundo durante uma das mais intensas nevascas a atingir a região, que chegou a ser apelidada de "Snowcalipse" nos EUA - Uma junção de neve com apocalipse. Essa nevasca de dezembro de 2010 na Inglaterra só não foi maior do que o recorde histórico do ano de 1981.
19 de dezembro de 2010, aeroporto Internacional de Londres – Heathrow, temperatura externa: -7° Centigrados. Há mais de 24 horas desde o começo de uma das maiores e mais intensas nevascas na região sul da Inglaterra, o aeroporto de Heathrow, o maior hub de passageiros internacionais do mundo, encontra-se fechado para pousos e decolagens. O inferno branco que assolou a região sul da Inglaterra começou no dia 17, quando uma linha de instabilidade trouxe para toda a região sul do Reino Unido neve e temperaturas glaciais, causando uma precipitação de mais de 10 cm de neve no aeroporto, além de condições propensas à formação de gelo. Por essas condições extremas, a BAA (administradora do aeroporto) decidiu fechar ambas as pistas de pouso por questões de segurança.
A imagem ao adentrar o onipotente e moderno Terminal 5 de Heathrow, usado de forma exclusiva pela British Airways, era desoladora. Todos os vôos do dia cancelados, com a previsão de apenas alguns vôos partirem no final da tarde para seus destinos, mas sem confirmação ainda, apenas aguardando um posicionamento da BAA a respeito da condição das pistas. Famílias e grupos de passageiros aguardavam por informações, sentados no chão do terminal e agasalhados com mantas que foram distribuídas na noite anterior por funcionários da BAA que haviam distribuído também tapumes de plástico para evitar contato com o chão gelado do terminal.
A situação nos poucos restaurantes do terminal era caótica, tanto para arranjar lugar para comer e/ou passar tempo como para comprar refeições. O volume de passageiros no terminal era colossal, porém não havia foco de exaltação ou gritaria em nenhum local do aeroporto. Para quem está acostumado com as cenas de escândalos e agressões verbais e físicas direcionadas aos funcionários como vemos no Brasil, se assustaria com a postura tanto dos funcionários como dos passageiros.
Após as 18:00 o número de passageiros no terminal diminuiu, pois os moradores de Londres e arredores haviam decidido retornar às suas residências devido aos cancelamentos do dia e outros haviam aceitado pagar o preço da diária em hotéis ou Bed and Breakfast (casas para pernoite) na região ou em Londres. Ao mesmo tempo, a pista norte foi aberta por pouco tempo, permitindo a decolagem de apenas 2 aviões da Virgin Atlantic e sendo fechada logo em seguida, com a informação de que voltaria a abrir antes do horário de fechamento do aeroporto. Com o avanço da noite, os poucos vôos programados pela British Airways partiram para seu destino, incluindo o vôo para São Paulo, e os outros foram cancelados. Logo em seguida, as operações no aeroporto foram encerradas pelo dia. No total apenas 20 dos 1300 vôos programados para o dia foram efetuados.
Com o término das operações do dia em Heathrow, o aeroporto encontrava-se em silêncio. Era hora daqueles que ainda estavam presos no gigante de Londres enfrentarem uma longa espera até o amanhecer, torcendo para que as operações fossem normalizadas em pelo menos uma das pistas.
Devido ao grande número de passageiros que se encontravam presos dentro dos terminais sem acomodação, a BAA, a fim de amenizar o desconforto, distribuiu alguns itens ao longo da noite, como mantas térmicas, água mineral e sanduíches. Os kits estavam à disposição de todos os passageiros, apenas tinham de ir lá pegar. Várias famílias se reuniam e fechavam pequenas áreas ao redor dos bancos para que pudessem descansar, além de proteger as crianças do frio. Vários passageiros solitários que permaneciam no aeroporto desde a noite anterior acabaram por ficar nas baias atrás dos balcões de check-in aonde são deixados os carrinhos de bagagem, que no Terminal 5 de Heathrow são em formato de ilha. Outros acabaram por se acomodar junto ao café que fica na extremidade norte do terminal. Após a meia-noite, a BAA reduziu a iluminação interna para que os que ali se encontravam pudessem descansar um pouco melhor.
Com o amanhecer as operações na pista norte voltaram a ocorrer com certa cadência, dando um sinal de esperança para aqueles que ainda aguardavam para sair de Londres. Com isso, no entanto, veio um problema. Como o aeroporto e seus terminais já se encontravam lotados de passageiros aguardando os vôos, em poucas horas, com mais passageiros chegando, os cinco terminais de Londres atingiram seu nível de saturação. Então, por motivos de segurança, só passaram a ser aceitos nos terminais os passageiros que tinham passagem marcada para o dia e a empresa aérea estava chamando para o check-in. Os passageiros que desejassem sair, mesmo que para fumar, não poderiam retornar, o que, em um continente onde o hábito do fumo ainda é muito forte, resultou em uma aglomeração ainda maior de passageiros do lado de fora, que ficaram aguardando notícia de seus vôos ao longo da gélida manhã e tarde.
Um dos maiores choques culturais observados durante a espera do lado de fora do terminal foi que em momento algum a polícia precisou usar de força ou de qualquer outro artifício para controle de multidão. Tanto a postura da população em entender o motivo pelo qual fecharam os terminais quanto o fluxo constante de informações da BAA e das empresas aéreas ajudaram a manter toda a situação sob controle. Além disso, a BAA contou com a ajuda da brigada dos bombeiros, que distribuíram mantas, cobertores térmicos (folhas ultrafinas de alumínio que ajudam a evitar hipotermia) e água.
Com o passar do dia, a BMI e a Aer Lingus cancelaram todas as operações partindo de Heathrow, e os passageiros dessas empresas, que aguardavam para partir ou entrar no terminal, tiveram que retornar às suas casas ou buscar um leito de hotel enquanto aguardavam um novo itinerário de viagem a ser feito pelas empresas, e o que estaria disponível online para todos os viajantes. Em seguida, foi a vez dos vôos da LOT serem cancelados devido à grande nevasca que agora atingia a Polônia. Quase que em seguida, a Lufthansa encerrou as operações em Heathrow pelo mesmo motivo, só que agora porque a neve caía em Frankfurt.
As 16:20, os passageiros da TAM que aguardavam do lado de fora foram convidados a adentrar o Terminal 1 e seguirem para a loja do aeroporto, para que colocassem o nome na lista de espera e recebessem seus vouchers de alimentação de 20,00 Libras. Os passageiros com reserva para o dia 20 seriam atendidos sem nenhuma alteração inicial, com o horário de abertura do atendimento às 18:00.
Durante todo este processo de colocar nome na lista, foi possível ver um esforço dos funcionários da TAM em Heathrow para atender todos os passageiros afetados pela nevasca, além de manter uma linha de comunicação direta com todos. Infelizmente, a aglomeração dos passageiros da Lufthansa somada com a falta de espaço do terminal para acomodar o grande número de viajantes, dificultou a organização de uma fila, encorajando alguns brasileiros acostumados a agredir funcionários no Brasil a ter a mesma postura em Heathrow. A BAA, junto com a policia metropolitana, deu um único e sonoro aviso por um megafone, de que brigas ou ofensas direcionadas a qualquer funcionário seria tratado com crime, com direito a passagem pela carceragem do aeroporto e uma pesada multa por atentado à segurança de vôo. Com este aviso, a ordem voltou a esta parte do terminal, e pouco depois das 17:20, todos os passageiros da TAM afetados estavam com seus vouchers de alimentação.
As 18:25 os guichês de Check-in da TAM foram abertos para atendimento. Os passageiros com reserva confirmada para o dia 20 foram os únicos autorizados a adentrar os divisores de fluxo, e os demais passageiros foram informados que a partir das 21:20 seria feito o chamado da lista de espera para o JJ8085. Além da lista de espera, no mesmo horário seriam repassadas as informações a respeito da confirmação de um segundo vôo com destino a Guarulhos. Já cansado de esperar em pé no terminal, me dirigi ao restaurante “Skylark – J D Wetherspoon”, onde por um preço razoável ao que se pagaria no Brasil, tive uma boa refeição, composta por um bom sanduiche com “chips” e um copo de coca-cola.
O restaurante, assim como qualquer ponto com tomada no Terminal, parecia uma zona de guerra. A briga por tomadas era ferrenha, gerando momentos bem divertidos para quem assistia às batalhas. Uma das mais engraçadas que eu presenciei foi a briga de três bravos guerreiros dos pampas, armados com seus possantes macbooks e protegidos por camisetas do internacional de porto alegre, encarando uma difícil batalha de gestos e vários “por favor” para dois senhores, de aparência irlandesa, para usarem a tomada da mesa deles. Após uns 15 minutos de negociação e um copo de cerveja, os senhores cederam a tomada.
As 20:30, já de volta ao check-in, recebi a informação da supervisora da TAM de que a BAA havia autorizado um segundo vôo para Guarulhos, e que mais de 125 passageiros que deveriam chegar de conexões não compareceriam devido ao fechamento dos seus aeroportos de origem. Com isso tive a certeza de que todos seriam atendidos e que eu, por fim, passaria a noite a bordo de um 777-300 ou de um A330. A essa altura do campeonato eu já pouco me importava em qual eu iria voar. Eu apenas queria voltar para casa.
Passando das 22:15, recebi meu cartão de embarque para o JJ9376, que seria feito por um A330-200, com assento marcado para a poltrona 18E. Fui instruído a passar de imediato pela segurança, já que às 22:45 ela seria fechada. Antes de finalmente despachar a mala, verifiquei se não estava transportando qualquer líquido acima de 100ml e efetuei uma última verificação de odor corporal (já se passavam 36 horas desde o último banho), tendo decidido então passar pela última vez o desodorante antes de guardá-lo na mala. Passada a segurança ficava o saguão de embarque, onde os passageiros poderiam aguardar a confirmação do portão de embarque enquanto faziam compras no Duty Free ou compravam um café. Enquanto aguardava para saber qual portão seria o do nosso vôo, encontrei o único café ainda aberto para poder tomar um bom chocolate quente para apaziguar o coração. Enquanto aguardava meu pedido, vi o 777-300 da TAM taxiando para o box.
Às 23:45 todos os passageiros foram direcionados para o portão de embarque, sendo recepcionados tanto pelo gerente da TAM em Heathrow como pela supervisora de Aeroporto. Ao adentrar o saguão onde fica o portão, foi possível verificar o PT-MVQ, que aos cuidados do comandante Nortron e sua tripulação, aguardava a todos para o início do embarque. De forma bastante organizada e cadenciada o embarque finalmente foi iniciado às 00:20. Antes do término do embarque, um dos passageiros do vôo foi desembarcado pela policia metropolitana de Londres. As portas foram fechadas pouco depois da 01:00 para então começar um taxi até a cabeceira 09L, também chamada de pista norte (“northern runway”). No taxi para a pista, passamos pelo imponente Terminal 5, onde 24 horas atrás eu descansava. À 01:30, o PT-MVQ alinha com a pista e inicia a sua decolagem de retorno ao Brasil.
Após o MVQ atingir sua altitude inicial de cruzeiro, foram oferecidas toalhas quentes a todos os passageiros antes do serviço de bordo, além do anúncio de que, por ter sido uma etapa não programada, não houve o embarque de mantas em Londres. Sorte a minha que, como por um milagre, ainda estava em posse da manta da BAA que me manteve aquecido. Após uma breve refeição, liguei meu mp3 player, coloquei os fones e apaguei, só retornando ao mundo dos vivos após 9 horas e meia, já sobre território brasileiro. Às 10:30 da manhã (horário de Brasília) foi servido um saboroso café da manhã (para os padrões de comida de avião), que rapidamente comi enquanto o MVQ se dirigia com proa para Poços de Caldas, a fim de ingressar na rota de aproximação em Guarulhos.
Às 11:38, horário do Congresso Nacional, do dia 21 de dezembro, o PT-MVQ tocou o solo brasileiro da pista 09R/27L no aeroporto de Guarulhos após uma viagem de quase 12 horas, que foi ovacionada por todos os passageiros. Pelo horário de pouso em Guarulhos, tanto a imigração brasileira como a restituição da bagagem e a passagem pela Receita Federal foram bastante ágeis, sendo totalmente fora da realidade dos brasileiros que retornam da Europa e encaram o congestionado posto de imigração da Policia Federal, assim como a fila para declaração de entrada de bens no Brasil.
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Mas nem tudo no meio desta tormenta foram bons exemplos. Toda a situação criada pela neve que caiu não apenas no Reino Unido, mas em toda a Europa, não causaram metade da dor de cabeça ao redor da Europa como causou na Inglaterra. As críticas direcionadas à BAA pela sua gestão do aeroporto do Heathrow são diretas e pouco amigáveis.
Os serviços de meteorologia previram a nevasca com uma antecedência de duas semanas e meia, e mesmo assim Heathrow ficou fechado por mais de dois dias seguidos, enquanto outros aeroportos tinham suas operações suspensas vez ou outra apenas para degelo da pista ou retirada de neve da pista ou taxiways. Apenas no terceiro dia (20/12) desde o inicio da neve é que uma das duas pistas de Heathrow abriu para pousos e decolagens, sendo que há 24 horas não caia neve na região do aeroporto. A impressão que se teve foi que a BAA simplesmente ignorou os avisos do Met Office (serviço de meteorologia britânico) e não deixou de prontidão o máximo de funcionários para retirar a neve das pistas, além do máximo de equipamento e material necessário para manter uma ou ambas as pistas longe de neve ou gelo. Enquanto Heathrow permanecia fechado ao longo da tarde do dia 20, Gatwick operava, embora com atraso significativo em suas operações, assim como os aeroportos de Luton, Stansted e outros aeroportos regionais na região de Londres, aumentando ainda mais a pressão para a BAA abrir as pistas de Heathrow. As criticas continuam, com a secretária de transportes (shadow transport secretary) Maria Eagle engrossando as filas das empresas aéreas, argumentando que a BAA racionou o estoque de fluído de degelo por medo de mais neve, aumentando ainda mais os atrasos.
A BAA encara uma perda financeira superior a 19 milhões de libras (R$ 51 milhões) referentes a taxas de pousos, decolagens e permanência no solo, apenas pelos problemas causados em Heathrow, além de enfrentar também pedidos de compensação financeira das empresas aéreas pelos cinco dias em que o aeroporto permaneceu com apenas uma pista operacional. A Virgin Atlantic suspendeu o pagamento de suas taxas de pousos e de pátio, aguardando um relatório final sobre o que levou o aeroporto de Heathrow a operar com apenas uma pista por 5 dias seguidos após um dia de neve. A BMI e a Lufthansa também aguardam um posicionamento da BAA para retratação financeira devido aos problemas enfrentados no aeroporto. Além do prejuízo financeiro, a BAA enfrenta agora uma crise de imagem, após várias fotos de passageiros sitiados no Terminal 5 de Heathrow, a menina dos olhos dos terminais da BAA, além de estar respondendo a um inquérito aberto para determinar as responsabilidades pela execução falha do plano de emergência para a nevasca antecipada.
Críticas pesadas também foram direcionadas à British Airways, maior empresa a operar no aeroporto de Heathrow, pelo seu website simplesmente ter saído do ar por congestionamento no dia 20/12, além dos funcionários dos serviços de atendimento ao cliente por telefone simplesmente não terem atendido as ligações, deixando os passageiros sem saber o que fazer ou como proceder.
Devido aos problemas enfrentados pela BAA em Heathrow, o diretor executivo, Colin Matthews, decidiu não aceitar o seu bônus salarial de 2010, além de anunciar um investimento de 10 milhões de Libras em equipamentos para neve, após Heathrow se mostrar despreparada para lidar com 13 centímetros de neve, e elaborar um plano que garanta a operação do aeroporto em condições mais extremas do que a experimentada no final de semana anterior ao Natal.
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