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Texto: Mastercaptain | Foto: Fábio Laranjeira

 

Amanhecia, o sol despertava guloso abocanhando a noite que ficava para traz. Voava a 39000 pés de altitude, encaixado em uma corrente de jato, muito comum em altas altitudes e mais proeminente abaixo da linha dos trópicos. Com a velocidade do MD-11 PP-VKQ de 485 Kt ( 875 kilometros por hora), adicionados aos 127 Kts ( 130 kilometros por hora ) de componente de vento de cauda, e com a proa a leste, o deslocamento ascendente do sol no horizonte era quase a duas vezes a velocidade normal.

 

Observava extasiado a volúpia deste astro magnífico. Olhei no relógio, era somente duas e dez da manhã, hora de São Paulo, onde tinha decolado com destino a Joanesburg, África do Sul. Aqui no meio do oceano atlântico, na longitude onde me encontrava, fazia todo o sentido estar amanhecendo. Sensação estranha. Apesar de estar a vários anos sofrendo com o conflito entre meu relógio biológico e a hora do sol, ainda não tinha me acostumado com isso.

 

Relaxado, curtia a ondulação dourada do “Lagoão” (apelido que os gaúchos deram ao oceano atlântico). Comandante, o senhor deseja alguma coisa? Disse a comissária que adentrava o cockpit. Aquela voz suave e polida da comissária despertou-me do deslumbramento causado pelas fantásticas formas que as sombras das nuvens provocavam em águas tão distantes e misteriosas.

 

Pedi a colega às opções de refeição. Geralmente embarcava comida da primeira classe com varias opções aos passageiros e nós invariavelmente optávamos por aqueles pratos dispensados pelos passageiros. Afinal verdadeiros banquetes eram servidos e não perdíamos a oportunidade de também degustá-los.

 

Hoje temos, para começar, Caviar do mar Cáspio com os acompanhamentos tradicionais. Como entrada, salada de lascas de bacalhau com vinagrete de azeitonas verdes e folhas de rúcula ou ainda dueto de tomate e vagem assados, complementados com molho balsâmico e queijo parmesão. Como prato principal às opções são Agnolotti de alcachofra oferecido com fricassé e cogumelos selvagens e molho de açafrão. Temos ainda filet mignon grelhado em crosta de ervas finas, realçado com molho de vinho tinto Merlot, servido com purê de batatas baroa e vegetais mediterrâneos ao forno. Ou ainda, se preferir, salmão do pacifico grelhado apresentado com batatas assadas no azeite e cebolinha verde, vagens cenoura e coulis de tomate e alcaparras.

 

Suspirei e pensando um pouquinho, pedi a salada de bacalhau com um pedaço de pão e uma coca light, afinal a hora não era a mais propicia para alguma farra gastronômica. Após a rápida refeição ela ofereceu para adoçar a boca um Sorbet de morango com calda de chocolate e passas ao rum, que eu prontamente recusei. E logo estávamos no ponto de não retorno, ou seja, a terra mais próxima era a do continente africano.

 

Ding-Dong, atendo a chamada pelo interfone e um comissário com a voz ofegante informa que existe fumaça dentro da aeronave. Mais precisamente na área da classe executiva. Dou um salto na cadeira e peço imediatamente para que eles tentem encontrar a origem da fumaça. Fornos, banheiros, galleys, compartimento de bagagens superiores tudo.

 

Os segundos demoram a passar, e logo o colega informa que não conseguiram identificar a origem da fumaça. Minha mão começou a suar. Fogo a bordo e perda de controles de vôo sempre foram minhas mais terríveis assombrações em se tratando de problemas em vôo. Nunca tinha tido essas experiências, seria hoje? E logo aqui entre o céu e o mar a mais de quatro horas de terra firme? Num momento destes a experiência acumulada que já possuía e as confianças no senhor deram-me a serenidade que precisava. Tínhamos tido um acidente terrível há muitos anos atrás onde uma aeronave tinha pousado em uma plantação de cebola próxima à cidade de Paris por fogo a bordo, onde foram vitimadas dezenas de pessoas. Não tinha nenhuma plantação de cebola abaixo, apenas tubarões e o desconhecido.

 

Rapidamente solicitei ao co-piloto que apanhasse o manual de emergências, um livro amarelo chamado por nós de “Yellow Monster”. O manual orientava a uma série de procedimentos a serem aplicados, uma lista enorme tendo como objetivo detectar a origem da fumaça. E finalmente concluía: Pouse no aeroporto apropriado mais próximo. Pousar? Onde?

 

A pesquisa do manual enfocava somente fogo de origem elétrica e fogo de origem conhecida. Querido e saudoso DC-10, foram tantos anos de interação que se tornaram uma maravilhosa escola para mim. O MD-11 na verdade é um DC-10 eletrônico, mais chique. E usufruindo a velha escola do DC-10, e é claro, um pouco de faro, concluí que aquela fumaça poderia ter origem na contaminação de óleo, queimado no ar sangrado para o sistema de pressurização da aeronave, coisa que o manual não previa.

 

Soltei o cinto de segurança e fui pessoalmente sentir a fumaça lá na classe executiva. Ao entrar na área de passageiros percebi que o clima já estava à beira do pânico entre passageiros e comissárisos. Já no primeiro momento, quando lá cheguei , duas passageiras de meia idade muito bem vestidas e exuberantes em jóias e acessórios deram gritinhos histérico ao falarem que a fumaça estava irritando os olhos. Pedi para manterem a calma, e senti perfeitamente que o cheiro realmente tinha um vestígio de óleo e voltei ao cockpit.

 

Como a fumaça estava mais evidente no meio do avião e esta área é alimentada pelo motor numero dois, eu e o coplitoto acabamos por isolar a sangria de ar deste motor e avaliar a situação. Passados alguns minutos a fumaça foi indo embora juntamente com o princípio de pânico que se instalava. Interessante como as pessoas transformam-se em momentos de crise. Com a situação controlada, chamei os colegas que estavam repousando e fizemos a troca da tripulação, dois comandantes e dois co-pilotos revezam-se no meio do caminho.

 

Deitei-me no “sarcófago” ( área de descanso de tripulantes, carinhosamente apelidada assim devido suas dimensões reduzidas) e comecei a repassar na mente qual teria sido o desdobramento caso tivéssemos tido um fogo incontrolável a bordo e o procedimento do manual aplicado. Teríamos de despressurizar a aeronave e descer para um nível de vôo que aumentaria muito nosso consumo. Abrir a janela era o penúltimo estepe e por fim pousar imediatamente. Azar dos tubarões que iam ficando para traz a medida que íamos atingindo a África pela costa da Namíbia.

 

Joanesburg, hotel, banho, uma rápida descansada e enfim a recompensa. Dizem que um piloto tem três fases em sua carreira. A primeira fase seria quando chega a uma cidade e logo procura saber onde fica a balada, o agito. Na segunda fase, onde encontra bons restaurantes. E na terceira e ultima fase, onde encontra uma boa farmácia. Estava na segunda fase, logo a comemoração do vôo foi num restaurante especializado em carne de caça, indicado por um passageiro. Costela de Zebra com um bom vinho Shiraz nacional fechou o dia de mais um destes vôos inesquecíveis. E que graças ao bom Deus teve uma volta tranqüila e sem problemas.