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Biocombustível, uma realidade não muito distante PDF Imprimir E-mail

 

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Texto: Flávio Campos | Foto: Edmundo Ubiratan


A ASTM International, uma das maiores empresas de desenvolvimento de normas internacionais no mundo, anunciou recentemente um novo passo rumo ao que se pretende ser, no futuro, o substituto dos combustíveis convencionais utilizados na aviação, especialmente o querosene que move os motores a jato.

 

Após extensas análises e testes, foi criada a especificação ASTM D7566, que define as normas para o uso de combustíveis derivados de misturas que contenham, adicionados aos combustíveis convencionais, até 50% dos chamados hidrocarbonetos sintetizados, material que pode ser feito explorando-se biomassa, gás natural ou carvão. A especificação D7566 ainda define quais combustíveis convencionais podem ser usados na mistura para o uso civil, na certificação e operação de aeronaves.

 

O resultado desses estudos e normas é a possibilidade de se trabalhar, de forma padronizada e segura, com um combustível menos poluente. Além disso, este é um importante passo em direção aos combustíveis 100% sintéticos, já visados pelas fabricantes de aeronaves, dentre elas a européia Airbus, que em comunicado feito pelo Vice-Presidente de Desenvolvimento Sustentável e Eco-Eficiência, Christian Dumas, afirmou que “as novas especificações são um grande passo rumo à redução das marcas deixadas no meio ambiente pela aviação.” Cabe ressaltar que a Airbus já vem trabalhando junto a fornecedores no desenvolvimento de combustíveis alternativos, inclusive realizando um vôo histórico em fevereiro de 2008, quando um A380 equipado com motores Rolls-Royce voou utilizando uma mistura composta por 40% de combustível derivado de gás natural.

 

E a Airbus não é a única em um avançado estágio de testes e avaliações. Em fevereiro de 2008, a Virgin Atlantic, em parceria com a Boeing, realizou o voo VS811P de Londres a Amsterdã com a aeronave B747-400 matrícula GV-WOW. Nesse voo a aeronave estava abastecida com uma mistura de combustível convencional e sintético a base de óleos de babaçu e coco. Desde então, a fabricante americana vem anunciando uma série de parcerias com outras cias aéreas com o objetivo de promover os biocombustíveis.

 

Em meio a essa saudável concorrência, a EMBRAER já deu o primeiro passo ao lançar a aeronave agrícola Ipanema, com motor movido a álcool. O Ipanema já era um sucesso antes desse lançamento e a possibilidade de se usar um combustível mais barato e de fácil acesso agradou os seus operadores, que viram o custo por voo diminuir. Entretanto, é importante salientar que tal combustível não se adéqua às necessidades dos motores à jato, fazendo com que o surgimento dessa versão do Ipanema seja um fato relevante no contexto geral, mas não específico, quando se fala de aviação comercial.

 

A busca por combustíveis alternativos está longe de um fim, visando a utilização de misturas sintéticas com o querosene de aviação, a EMBRAER firmou parceria com outras grandes empresas como PETROBRAS e BioTech.

 

A fabricante brasileira acredita que o uso dos biocombustíveis será possível no médio-longo prazo, quando um combustível padronizado que possa ser utilizado por toda a indústria seja definido. Segundo o Vice-Presidente Executivo de Planejamento Estratégico e Desenvolvimento da Embraer, Satoshi Yokota, os próprios acordos para acelerar o desenvolvimento dos biocombustíveis nos Estados Unidos e Europa são um reflexo da necessidade de se obter tal padronização.

 

Importância dos biocombustíveis para o Brasil


Com um mercado há muito acostumado com os combustíveis alternativos vindos da cana-de-açúcar, as misturas sintéticas pretendidas para a aviação, apesar de não terem como foco a cana, não deixam de criar um grande potencial de geração de divisas para o país. Isso se deve ao fato de que seja qual for o material utilizado, o Brasil possui boas fontes, dos resíduos vegetais ao gás natural, especialmente no que tange ao gás natural, produto que compôs a mistura 40% sintética que impulsionou o voo de teste realizado pela Airbus em 2008 com o A380.

 

Com a descoberta das reservas do pré-sal, o potencial brasileiro de produção diária do gás supera a necessidade de consumo interno, colocando o país como um futuro exportador e, caso este venha a ser um dos componentes do biocombustível da aviação, a estatal PETROBRAS se colocaria em excelente posição, não apenas para fornecer ao mercado interno, mas também ao externo. Neste cenário, o Brasil tem tudo para se fortalecer como fornecedor de aeronaves através da EMBRAER, e, matéria-prima para biocombustíveis através da PETROBRAS.

 

Os biocombustíveis já são um fato e não mais um sonho. Juntamente com essa nova realidade na economia mundial, onde não só o aspecto de custo econômico está em jogo, começa a pesar o custo ambiental, e neste cenário o Brasil tem uma posição chave, pois detêm capacitação tecnológica e farta matéria-prima.

 

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Bioquerosene é mais barato, menos poluente e com alto grau de pureza


Uma equipe da FEQ (Faculdade de Engenharia Química) da Unicamp desenvolveu uma nova tecnologia para o processo de produção de bioquerosene a partir de óleos vegetais, tendo inclusive depositado a patente. Segundo o estudo, o novo combustível poderá substituir com diversas vantagens o querosene usado pela aviação.

 

Os pesquisadores afirmam que além de ser mais barato, o combustível vegetal é menos poluente, pois não é emissor de enxofre, de compostos nitrogenados, de hidrocarbonetos ou de materiais particulados.

 

O processo para a obtenção do novo produto começa com a extração e refino do óleo, após os quais ele é colocado em um reator, junto com o catalisador e uma mistura de etanol. A quantidade de etanol utilizada é um ponto importante do processo, sendo que o catalisador tem como função acelerar a reação química e fazer com que ela ocorra em uma temperatura mais baixa.

 

O etanol foi o álcool escolhido pela equipe da Unicamp por ter baixa massa molar e ser um reagente não-agressivo e renovável. Uma de suas características é reagir com o ácido graxo, o que da origem ao bioquerosene.

 

Outra novidade do processo nessa tecnologia é o balanço preciso das diversas variáveis envolvidas nas reações químicas e também a purificação, das quais resulta o bioquerosene com as propriedades desejadas.

 

A segunda etapa de produção é considerada pela Unicamp como a mais importante, pois é a separação de todos os produtos da reação, ou seja, o isolamento do éster, do catalisador, da água e da glicerina. O isolamento é feito em uma unidade de separação intensificada, em condições de temperatura e pressão que possibilitam a obtenção do bioquerosene de forma economicamente viável e que atenda aos requisitos para o querosene de aviação estabelecidos pela ANP (Agência Nacional do Petróleo).

 

Porém, ainda não existem no Brasil instituições que possam atestar se o produto obtido atende às especificações do querosene de aviação. Contudo, os resultados das análises foram comparados com a tabela de especificação do querosene de aviação da ANP, demonstrando que o novo combustível possui características semelhantes às do querosene de aviação.

 

Embora haja uma série de pesquisas e diversos biocombustíveis sendo testados em várias partes do mundo, inclusive no Brasil, a equipe da Unicamp não identificou que haja processo e/ou produto similar em desenvolvimento. Além disso, também não foi encontrado no mercado produto identificado como bioquerosene.

 

Depois da patente, o próximo passo é o estudo da produção em escala industrial. O grupo de pesquisadores da Unicamp pretende repassar a tecnologia para empresas interessadas em produzir o bioquerosene.

 

 

 

 

Colaboraram: Fábio Laranjeira e Edmundo Ubiratan